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“É preciso falar de suicídio, pois é no silêncio que ele cresce”, alerta Psicóloga

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Recente caso de um jovem de 16 anos que tirou a vida início de agosto após ser atacado nas redes sociais com comentários motivados por homofobia é mais um exemplo entre milhares pelo mundo que cometem suicídio, seja por conta da enxurrada de discursos de ódio na internet ou por diversos outros motivos de sofrimento emocional. Seja qual for a motivação para tal ato, a psicóloga e psicoterapeuta Sabrina Matias alerta que os dados comprovam que estamos vivendo uma pandemia de suicídio e é por isso que temos que cada vez mais falar sobre o assunto, pois é no silêncio que ele cresce.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que o suicídio continua sendo uma das principais causas de morte em todo o mundo. Em 2019, foram mais de 700 mil pessoas. Um boletim divulgado pelo Ministério da Saúde em 2019 também mostrou um aumento expressivo das tentativas de suicídio em relação ao total de violência autoprovocada (casos de ideação suicida, automutilações e tentativas) entre os jovens de 15 a 29 anos, passando de 18,3% em 2011, para 39,9% em 2018.

Sabrina Matias explica que não é porque números e casos de suicídio não possam ser divulgados que devemos tapar os olhos e ouvidos diante do assunto, principalmente quando se tratam de crianças ou adolescentes, pois ambos estão ainda em fase de aquisição de habilidades socioemocionais, ou seja, não possuem o cérebro 100% maturado para tomar as rédeas da própria vida e ter discernimento sobre muitos sentimentos, emoções e é aí que entra o papel dos pais, que vai dar a base, os limites e levar essa criança e adolescente a passar por essas etapas, fazê-lo enxergar sua identidade e lá na frente conseguir lidar melhor com obstáculos da vida.

“Os pais precisam trazer esse assunto à tona, conhecer seus filhos com profundidade, falar de valores, opiniões, colocar limites. Os pais precisam fazer a autorregulação da vida dos seus filhos para melhor prepará-los para o futuro. Sem limites, esses adolescentes lá na frente não vão ter a capacidade de se colocar limites e/ou aceitar limites, regras. Terão dificuldade de receber um não, não vão saber lidar com as frustações”, explica a psicóloga.

Sabrina Matias psicóloga- crédito Victoria Decuzzi

A psicóloga alerta para mais uma questão. A depressão não é mais o mal do século. Mas a internet é que tem se tornado cada vez mais esse mal. Os adolescentes estão perdendo cada vez mais a capacidade de entrar em contato com a frustração. E isso tem se potencializado com a internet. Segundo Sabrina, isso acontece porque com a internet você não cria laços profundos, então quando você tem uma relação que te aborrece você corta, você não encara, você simplesmente se desconecta com aquela pessoa, você não busca entender. As pessoas não têm responsabilidade pela vida da outra. “E com isso, os adolescentes estão perdendo a capacidade de resolver seus conflitos sociais. E por outro lado esses adolescentes por estarem ocultos se sentem no direito de falarem o que querem, de expressar sua forma de uma forma até irracional.  Sem capacidade de julgamento do que pode ser falado ou não. Na internet ela descarrega e não mede as palavras. E suas palavras se tornam verdadeiramente violentas em relação ao outro, que também não está preparado para receber aquilo, pois não está treinado em uma relação real, onde você consegue resolver com o outro as suas questões. Possivelmente foi o que aconteceu com o caso do jovem de 16 anos que tirou a vida após comentários de ódio contra ele nas redes sociais, que nas palavras da própria mãe ela já vinha percebendo sinais no filho, que inclusive já tinha ido no psicólogo, mas provavelmente os comentários foram o estopim para que o adolescente viesse a tomar tal atitude repentinamente”.

Ainda sobre como a internet tem afetado cada vez mais as pessoas, e principalmente os jovens, é sobre a sensação que as redes sociais passam de que a vida do outro é perfeita e aquelas pessoas que tem aquela vida perfeita é que são amadas. “Então para eu ser amada eu tenho que ter a vida perfeita, corpo perfeito, comer nos melhores restaurantes, ter muitos likes, engajamento. Hoje, o like mostra o quanto você é verdadeiramente amado ou não, ou seja, eu preciso ser validado pelo outro o tempo todo. Essa validação se traduz em amor pelo adolescente e quando ele não tem isso ele se frustra, surge a ansiedade e muitos outros problemas”, explica.

A psicóloga reforça mais uma vez a importância do diálogo entre pais e filhos sobre os temas atuais que envolvem as redes sociais, desde bullying, homofobia, cancelamento na internet e muito mais, e como lidar caso alguma dessas situações aconteça. Pois em muitos casos de suicídio em jovens, muitos pais não sabem explicar o motivo que teria levado a filho a cometer tal ato, pois para eles, o filho não demonstrava sinais claros e característicos que podem antecipar um suicídio como tristeza profunda, irritabilidade, isolamento exagerado, apatia, entre outros. “Muitos adolescentes sentem vergonha de expor seus sentimentos e emoções aos pais. Sofrem calados. Por isso, os pais precisam demonstrar todos os dias que eles estão ali lado a lado dele, ganhar confiança, proximidade, tentar compreender o que seu filho passa. É uma questão séria que devemos cada vez mais discutir em comunidade e dentro das nossas casas”, conclui Sabrina.

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Danielle Ewald

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